Saúde
Como a polilaminina chega a pacientes mesmo sem aprovação da Anvisa?
Substância já chegou a 28 pacientes por decisões judiciais, enquanto especialistas apontam falta de dados robustos
VEJA / VICTóRIA RIBEIRO SEGUIR SEGUINDO
Mesmo sem aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a polilaminina — molécula que ganhou notoriedade por supostamente devolver movimentos a pessoas com lesões medulares — já foi aplicada em ao menos 28 pessoas no País.
A pesquisadora responsável pelo desenvolvimento da substância, a bióloga Tatiana Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), declarou, em entrevista ao Roda Viva, da TV Cultura, que os pacientes têm conseguido acesso por meio de decisões judiciais — ou seja, pela Justiça. Além dos 28 casos já realizados, há cerca de 32 pedidos em andamento.
Embora muitos vejam a iniciativa com bons olhos, Sampaio afirmou que os processos de judicialização dificultam o avanço científico e criam um “vácuo de dados”. Isso porque as pessoas que recebem a substância por via judicial não passam por acompanhamento sistemático nem são obrigadas a relatar eventuais efeitos adversos.
“Imagina se houver um efeito adverso e a pessoa não relatar? Se houver uma melhora inesperada ou alguma coisa que a gente nunca imaginou? Provavelmente não vamos ficar sabendo. Fica de fora da pesquisa”, disse a bióloga, que afirmou tentar se manter informada pelas notícias veiculadas na imprensa.
Sampaio declarou, ainda, que em tese, os processos de judicialização não seriam necessários. Pelo regulamento da Anvisa, médicos podem solicitar diretamente à agência o uso compassivo da substância. Nesse caso, trata-se de uma exceção regulatória que permite tentar um tratamento ainda em fase experimental quando o paciente tem uma doença grave ou que ameaça a vida e não há terapia eficaz disponível no País.
O problema é que essa via prevê um prazo de até 45 dias para resposta — tempo considerado longo demais para lesões medulares. Hoje, a janela ideal para aplicação da polilaminina é de 72 horas.
Especialistas pedem cautela
Embora os relatos sobre a polilaminina pareçam animadores, parte da comunidade científica pede cautela. O nutricionista Igor Eckert, que atua com práticas baseadas em evidências, destacou que é indiscutível que alguns pacientes melhoraram após receber a polilaminina. A discussão, segundo ele, é se a melhora pode ser atribuída diretamente à substância.
Um ponto central é que a lesão medular não é necessariamente estática. A literatura mostra que parte dos pacientes classificados inicialmente como nível A (perda total de movimentos) pode evoluir espontaneamente para níveis com algum grau de recuperação motora. Estimativas apontam que até 40% podem converter de A para C ao longo do tempo.
Isso significa que a aplicação ocorre em um momento de incerteza clínica, especialmente nas primeiras horas após o trauma, quando ainda pode haver dificuldade para definir o grau real de comprometimento funcional.
Além disso, até o momento não há ensaios clínicos randomizados, controlados e revisados por pares que permitam estabelecer nexo causal robusto entre o uso da polilaminina e a recuperação observada.
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