O que a primeira gargalhada do bebê revela sobre a mente humana | Mens sana

Em tempos marcados por discussões sobre traumas, uma cientista americana estuda o poder da risada dos pequenos

VEJA / ILANA PINSKY


O humor dos bebês tem muito a dizer sobre o desenvolvimento humano (/)

Há algo de fascinante na ideia de construir uma carreira dedicada a estudar o desenvolvimento do humor em bebês. Esse é o campo da psicóloga do desenvolvimento Gina Mireault, professora e diretora do Infant Laughter Lab na Universidade Estadual de Vermont, nos Estados Unidos. Em tempos em que a atenção pública parece sequestrada pelo pior da humanidade — predadores sexuais, feminicidas, atiradores em escolas, guerras sucessivas, polarização histérica transformada em entretenimento digital — há algo radical em voltar ao início da vida e perguntar: o que significa uma gargalhada aos três meses de idade?

A ciência do desenvolvimento sempre se concentrou, corretamente, nos grandes marcos do primeiro ano: sentar, engatinhar, andar, falar. O choro, com sua função clara de convocar cuidado, também recebeu atenção robusta (principalmente das mães!). Já o riso, embora encante pais e avós, parecia periférico. Um bônus. Um luxo evolutivo. Mas o fato de o riso surgir tão cedo — antes mesmo de habilidades motoras básicas como sentar ou balbuciar palavras com intenção comunicativa — sugere que ele não é um enfeite. Se aparece tão cedo, provavelmente cumpre funções. Mireault afirma que aquelas gargalhadas revelavam algo fundamental: não apenas emoção, mas cognição.

A trajetória da pesquisadora torna essa escolha ainda mais curiosa. Mireault começou sua carreira em um laboratório de dependência química, trabalhando com pesquisadores como John Hughes, Stephen Higgins e Warren Bickel. Um ambiente intenso, muito bem financiado, dedicado a entender o que há de mais autodestrutivo no comportamento humano. Depois de anos estudando dependência e, depois, perda parental precoce, ela migrou para o extremo oposto do espectro existencial: o riso de bebês. Que pessoa sortuda.

A virada ganhou força num episódio doméstico. Seu filho, aos três meses, soltou sua primeira gargalhada clara durante um funeral — reagindo ao espirro de um dos presentes. O som atravessou o ambiente de luto e, por alguns segundos, reorganizou o clima emocional da sala. O bebê não tinha, evidentemente, intenção social elaborada. Mas produziu efeito social. Aquela cena quase experimental deixou uma pergunta no ar: o que exatamente está acontecendo na mente de um bebê quando ele ri?

Uma pequena linha do tempo ajuda a entender. O sorriso reflexo aparece ainda na vida intrauterina e já está presente nos recém-nascidos. Por volta das seis semanas, começa a se tornar social: o bebê passa a direcioná-lo a pessoas específicas. A gargalhada emerge em torno de três a quatro meses. É involuntária, corporal, quase avassaladora. Adultos reconhecem essa experiência em si mesmos: quando o riso escapa antes que possamos contê-lo. Neurobiologicamente, envolve circuitos subcorticais ligados ao sistema límbico — o que explica por que é difícil simular uma gargalhada genuína.

Por volta dos seis meses, algo muda. O bebê começa a modular o riso de maneira voluntária, coincidindo com o início do balbucio (“mamama”, “bababa”). O riso passa a envolver áreas corticais motoras associadas à produção vocal. A partir daí, ele pode ser usado estrategicamente nas trocas sociais: para manter uma interação, convidar o outro a continuar, reforçar um vínculo.

É sensacional como o comportamento de rir e a percepção do humor vão evidenciando a rapidez com que a inteligência dos bebês se desenvolve.  Para que algo seja percebido como engraçado, o bebê precisa detectar uma incongruência — uma quebra leve de expectativa. O pai usa uma banana como telefone. A mãe coloca o chapéu do bebê no cachorro. Um objeto aparece onde não deveria estar. Não é o susto que gera riso; é a surpresa segura. Inicialmente, o sorriso dos adultos funciona como sinalizador (“isso é seguro, pode rir”). Mas os experimentos indicaram que bebês de cinco e seis meses já discriminam o potencial humorístico por conta própria. Eles comparam o que sabem sobre o mundo com o que estão vendo agora. Isso exige memória. Exige formação de expectativas. Exige cognição.

A partir dos seis meses, surge o que pesquisadores chamam de clowning: o bebê faz caretas, sons estranhos, exibe partes do corpo de forma teatral. Entre oito e nove meses, aparece o teasing (provocação). O bebê finge colaborar na troca de fralda e escapa no último segundo. Ou aproxima-se do objeto proibido após simular obediência. Os bebês conseguem entender que dá para fazer as pessoas pensarem algo que não é verdade! Esse comportamento sugere algo sofisticado: a compreensão de que o outro tem expectativas que podem ser manipuladas. É um embrião do que mais tarde chamaremos de teoria da mente (habilidade de atribuir estados mentais aos outros, algo central para a gente conseguir se relacionar). O riso, portanto, não é mero subproduto da diversão. Ele revela memória, previsão, sensibilidade às normas sociais e uma inteligência emergente capaz de brincar com o inesperado.

Do ponto de vista evolutivo, conta Mireault, isso faz sentido. Somos mamíferos sociais e precisamos sinalizar segurança, aliança, confiança. Filhotes de várias espécies produzem o chamado “play pant” — uma respiração ofegante típica de brincadeiras corporais intensas, que soa bastante como risadas. O som comunica: isto é jogo, não é ameaça. Com bebês humanos, algo semelhante acontece quando eles começam a experienciar (primeiro recebendo dos outros) as risadas. Progenitores (especialmente os pais homens, para ser específica) — tendem a ser surpreendentemente vigorosos (para desespero de muitas mães) nas interações lúdicas com os bebês: balançam, levantam no ar, fazem vozes caricatas, jogam objetos macios na barriga, sopram no rosto. Tudo acompanhado de sorrisos amplos. A mensagem é clara: confie, é seguro. Sem os sorrisos, possivelmente os bebês não iriam interpretar essas interações como prazerosas.

Historicamente, o tema passou longos períodos negligenciado. Charles Darwin descreveu o riso de seu filho em 1872. Mary Washburn realizou um estudo descritivo nos anos 1920. Depois, silêncio relativo, até Alan Sroufe retomar a questão nos anos 1970. Pesquisadores como Paul McGhee, Norma Pien e Mary Rothbart escreveram sobre humor infantil, mas raramente focaram especificamente em bebês. Foi Vasu Reddy, professor da Universidade de Portsmouth na Inglaterra, no fim dos anos 1990 e 2000, quem recolocou o tema com força conceitual — e influenciou diretamente Mireault.

Por que o atraso? Porque a psicologia, historicamente, foi moldada pela psicopatologia. Perguntamos obsessivamente o que pode dar errado. O riso não parecia urgente. Quando Mireault começou a publicar, em 2008, havia apenas quatro pesquisadores ativos na área. Hoje são dezenas, espalhados pelo mundo. O campo amadureceu. Em uma de suas primeiras apresentações, um colega comentou: “Você estuda riso? Eu estudo choro”. Ambos riram. O contraste resumiu bem a mudança de perspectiva.

* Ilana Pinsky é psicóloga clínica, doutora pela Unifesp. É autora de Saúde Emocional: Como Não Pirar em Tempos Instáveis (Contexto), entre outros livros. Foi consultora da OMS e da OPAS e professora da Universidade Colúmbia. Siga a colunista no Instagram: @ilanapinsky_



COMENTÁRIOS