Estudo identifica como o linfoma 'desliga' células de defesa do organismo

FOLHA


Estima-se que 40% dos linfomas não Hodgkin sejam de grandes células B (LDGCB), um tipo agressivo - Igor Stevanovic - 23.ago.19/Bits and Splits - stock.adobe.com

O linfoma é um tipo de câncer que ataca o sistema linfático, responsável por produzir as células de defesa do organismo.

Há mais de 60 tipos diferentes desse tumor, divididos em dois grandes grupos: Hodgkin e não Hodgkin.

Uma das formas mais agressivas, o linfoma difuso de grandes células B (LDGCB), é também uma das mais frequentes na população: estima-se que 40% dos linfomas não Hodgkin sejam LDGCB, o que no Brasil representa quase 5.000 novos diagnósticos por ano, segundo o Inca (Instituto Nacional de Câncer).

'O LDGCB é um dos tipos mais agressivos por ter uma capacidade de crescimento muito rápido e por sua facilidade de ocorrer fora dos linfonodos', explica o hematologista Guilherme Perini, do Centro de Excelência em Linfomas do Einstein Hospital Israelita.

Daí por que a ciência tem se dedicado a estudar mais esses tumores. Um estudo publicado em março no Journal of Immunology encontrou respostas que podem ajudar a entender sua origem, agressividade e até indicar um caminho novo de tratamento.

Pesquisadores do Instituto de Pesquisa Josep Carreras, na Espanha, identificaram em células humanas in vitro e depois em animais um mecanismo pelo qual o linfoma consegue comprometer o sistema imunológico, facilitando a própria multiplicação.

De acordo com os achados, o LDGCB age impedindo a expressão de uma proteína responsável pelo amadurecimento das células B, que produzem anticorpos e são uma das principais linhas de defesa do organismo.

Ao não receberem uma proteína chamada HDAC7, as células passam a se multiplicar descontroladamente. O estudo indica que a diminuição dessa proteína foi associada a um prognóstico ruim, possivelmente facilitando o avanço da doença.

'O linfoma não ataca diretamente a proteína, mas diminui sua expressão de modo que essas células não conseguem chegar aos níveis adequados de HDAC7. Dessa maneira, elas ficam presas em um estado imaturo que as conduz a uma proliferação de forma descontrolada, agressiva e sem serem capazes de cumprir sua função como células de defesa', explica a pesquisadora Mar Gusi-Vives, uma das autoras do artigo, à Agência Einstein.

Uma maneira de entender o mecanismo é pensar que ele desativa 'interruptores'. 'A presença do tumor não altera a célula de defesa, mas muda como ela manifesta seus genes. Em condições normais e saudáveis, esse interruptor permanece ligado, já que tem um papel importante na maturação da célula. Mas as mutações cancerígenas parecem conseguir desligá-lo permanentemente, mesmo sem comprometer o DNA', esmiúça Gusi-Vives.

Esse processo pode ajudar a explicar o que leva o LDGCB a avançar tão rapidamente. Mas a pesquisa também aponta como religar o 'interruptor' desativado. Isso melhorou a saúde de animais com linfoma, além de mostrar bons resultados de redução de células tumorais.

'Ao fazer a reexpressão dessa proteína, as células conseguiram retomar essa programação de amadurecimento que havia sido interrompida e se desenvolver para se tornarem células de defesa', analisa Perini.

'O linfoma surge exatamente quando há um erro na programação da célula, como um bug de computador. A pesquisa identificou a origem desse bug e mostrou que, quando você arruma esse pequeno problema no código, é possível fazer com que a célula volte ao normal.'

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Apesar dos resultados animadores, é preciso cautela. 'Em pessoas, não é possível reintroduzir a proteína como fizemos em nível experimental', avisa a pesquisadora. 'Em pacientes, o que teremos que buscar é impedir que o tumor bloqueie a expressão da proteína.'

Vale lembrar também que a trajetória de uma descoberta em animais até se tornar uma terapia eficaz em humanos é complexa.

'Após a prova biológica, demonstrada no estudo, inicia-se um longo caminho para saber se isso pode se reverter em uma terapia. Para isso, a proteína usada tem de ser eficaz e ter pouco efeito em outras células normais', explica o hematologista do Einstein.

Atualmente, o tratamento do linfoma difuso de grandes células B combina quimioterapia e imunoterapia. Com diagnóstico precoce e terapias corretas, estima-se que 70% dos pacientes alcançam a remissão completa.

Para os casos em que a doença resiste, uma alternativa promissora são as terapias celulares, como a CAR-T, que utiliza células do próprio paciente, modificadas geneticamente, para atacar células relacionadas ao câncer sanguíneo.

'O futuro é a gente ter um arsenal de terapias cada vez mais variado, e novas armas são sempre bem recebidas nessa batalha', conclui Guilherme Perini.



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