Sinais trocados e país dividido

Pesquisas indicam espaço para novo movimento por voto útil

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro  (Marcelo Camargo/Agência Brasil/Waldemir Barreto/Agência Senado/Divulgação)

A dez dias da eleição, os institutos parecem discutir entre si. A AtlasIntel dá a Lula 45,8% contra 43,4% de Flávio Bolsonaro no primeiro turno e ainda o mantém à frente no segundo, por 47,7% a 47,4%. A Quaest registra Lula com 37% e Flávio com 33%, mas inverte no segundo turno: 42% a Flávio e 41% a Lula. Tudo dentro da margem de erro, com ressalva relevante: no início do mês, a mesma Quaest ainda concedia 7 pontos de vantagem ao presidente.

A série histórica ajuda a entender o momento. Nas últimas cinco eleições, o Datafolha feito a dez dias do pleito chegou perto do resultado obtido pelo candidato do PT. Lula tinha 49% em 2006 e fez 48,6%; Dilma marcava 46% em 2010 e acabou com 46,9%; Lula aparecia com 47% em 2022 e alcançou 48,4%. Com seus adversários, ocorreu algo diferente. Alckmin passou de 31% para 41,6% em 2006, Aécio de 18% para 33,5% em 2014, Bolsonaro de 28% para 46% em 2018 e de 33% para 43,2% em 2022. Na véspera do segundo turno de 2022, Lula tinha 52% contra 38% e acabou vencendo por apenas 50,9% a 49,1%. Em boa medida, esse movimento decorre do voto útil.

O mesmo fenômeno começa a aparecer na Quaest. Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury somam 13% das intenções de voto, e mais de 40% de seus eleitores admitem mudar. Entre os apoiadores de Caiado, a disposição para trocar de candidato passou de 41% para 52% em uma semana. Entre os de Renan, de 47% para 51%. Cury permanece estável, em 41%. Zema, com 1%, é a exceção: entre seus eleitores, a disposição para mudar caiu 19 pontos, chegando a 42%. A terceira via começa a perder eleitores, ainda que isso não apareça integralmente nas intenções de voto.

“Caiado, Renan e Cury somam 13% das intenções de voto e mais de 40% admitem mudar de candidato”

Já nas duas principais candidaturas, o eleitorado parece cada vez mais consolidado. Entre os eleitores de Lula, 86% afirmam que a decisão é definitiva, 8 pontos a mais em uma semana. Entre os de Flávio, são 82%, 10 pontos a mais. Há pouco espaço disponível, e boa parte dele está em candidaturas à direita. Para Flávio, o caminho passa por antecipar a migração, insistir no custo de vida e focar no Sudeste.

Parte da divergência entre os institutos pode estar no método. A AtlasIntel faz recrutamento digital e tende a encontrar um eleitor mais engajado e com voto definido. Já a Quaest, com entrevistas presenciais, alcança também um eleitor menos mobilizado, que ainda admite rever sua escolha. É precisamente nesse contingente que está uma das principais incógnitas dos próximos dez dias.

A eleição está em aberto. A experiência das eleições anteriores mostra que o candidato do PT costuma chegar à reta final relativamente próximo do que indicavam as pesquisas, enquanto seus adversários, em várias ocasiões, cresceram de maneira expressiva nos últimos dias. A Quaest sugere que existe novamente um contingente de eleitores disposto a migrar, desta vez concentrado principalmente em candidaturas à direita. Se essa movimentação ocorrer, mesmo que em menor proporção, Flávio pode chegar ao primeiro turno em situação mais apertada com Lula do que algumas leituras de pesquisas sugerem. A dez dias da votação, os números permitem falar em disputa acirrada. O favoritismo de Lula deu lugar à incerteza.

Publicado em VEJA de 25 de setembro de 2026, edição nº 3014



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