Agronegócios
Crédito travado no campo gaúcho: negociar não faz o produtor plantar
A rolagem de dívidas sem crédito adicional estrangula a renda operacional e ameaça a próxima safra
CANAL RURAL/MIGUEL DAOUD*
O produtor gaúcho chegou a 2025 com três choques de estiagem e uma enchente histórica na conta. O resultado é queda de produção, receita comprimida e um passivo que foi sendo “rolado”, mas sem recompor limite para o próximo plantio.
Sem limite, não há custeio; sem custeio, não há renda para pagar nem a dívida rolada nem a corrente. O estado do Rio Grande do Sul registrou, em 2024, a pior tragédia climática de sua história recente, com mais de 200 mil propriedades rurais atingidas — um choque de produtividade e de caixa que não some com uma mera renegociação.
A dimensão macro agrava: a Selic em 15% a.a. prolonga a restrição monetária, freia crédito e atividade e pressiona o fluxo de caixa do campo. Mesmo com alguma desinflação, o próprio governo reconhece a transmissão forte da política de juros sobre crédito e PIB.
Houve avanços: o CMN e o governo abriram linhas especiais para produtores afetados por eventos climáticos, inclusive no RS, com taxas entre 2% e 10% a.a. para liquidar/amortizar dívidas, e ampliaram o rol de municípios contemplados (agora 459).
Também vieram R$ 12 bilhões em crédito emergencial segmentado por porte. São passos corretos — mas focalizados em renegociar ou quitar passivos. Eles não reconstroem o limite de custeio para o próximo ciclo quando o produtor já está “no teto”.
No Plano Safra 2025/26, as taxas equalizadas ficaram abaixo do mercado, mas a base Selic alta encareceu e racionou o crédito, efeito sentido sobretudo por médios e grandes fora das faixas mais subsidiadas. Entidades do setor já alertaram que a atual estrutura de juros compromete a efetividade do Plano.
Impactos climáticos severos no RS rebaixaram produção e renda; o Ipea e o governo do RS quantificam perda ampla em grãos (soja, milho, trigo, arroz) e 206,6 mil propriedades afetadas.
O governo federal tem linhas e pacotes (R$ 12 bi; taxas reduzidas e novos municípios), e o CMN acaba de aprovar mais medidas focadas em produtores atingidos — especialmente no RS —, sinalizando espaço regulatório para ajustes adicionais como o “crédito-espelho”.
Em paralelo, a Selic em 15% segue sendo uma âncora de custo/escassez de crédito. Mesmo com equalização no Plano Safra, a base cara raciona e limita o alcance prático.
Negociar sem recompor limite é empurrar o produtor para fora da próxima safra. O “crédito-espelho” com garantia pública parcial é a ponte entre a dívida rolada e a renda operacional que paga a conta.
O arcabouço regulatório já existe (CMN, fundos garantidores); falta vontade de conectar as peças. No RS, isso não é política de nicho: é segurança alimentar, emprego e arrecadação. E é agora — antes que a lavoura vire estatística
*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
O Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.