Agronegócios
Riqueza do agro torna o Centro-Oeste a meca dos investimetos financeiros
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COLHENDO SOJA Eduardo Monteiro Divulgação.jpg
PorLuiz Guilherme Gerbelli
Impulsionada pelo agronegócio, a riqueza dos moradores doCentro-Oestepassou a ser alvo de disputa no mercado de investimentos. E não é para menos. No ano passado, a região subiu de patamar e alcançou o Sudeste com a maior proporção de investidores em relação à população local.
Em 2022, 43% dos habitantes do Centro-Oeste disseram aplicar em algum produto financeiro – dos mais simples, como a poupança, aos mais complexos-, uma alta de 10 pontos porcentuais em relação ao levantamento de 2021, de acordo com uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).
“O Centro-Oeste está crescendo há algum tempo, e a participação da região ficou mais relevante por causa do desempenho do agronegócio”, afirma Marcelo Billi, superintendente educação da Anbima.
O fortalecimento do Centro-Oeste é reforçado pela trajetória do volume de investimentos de pessoas físicas tanto no varejo como no private na indústria de fundos. A região registrou o maior crescimento no ano passado, alta de 14,5%, para R$ 257,46 bilhões.
Nos últimos anos, o agronegócio tem destoado do resto da economia e contribuído de forma direta para o desempenho positivo do Centro-Oeste. Num cenário de baixo desemprego, a massa de renda de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Distrito Federal somou quase R$ 28 bilhões em 2022, um crescimento de 26% em 10 anos, de acordo com dados compilados pela consultoria LCA. Nesse mesmo período, o País registrou um aumento de 17%.
“Os maiores ganhos foram observados durante a pandemia por causa do boom de commodities e das safras recordes”, afirma Bruno Imaizumi, economista da LCA.
Mais do que impulsionar a renda do produtor, o setor tem sido capaz de dar dinamismo para toda a cadeia da economia local, beneficiando a indústria e o comércio instalados na região.
“A participação do agronegócio na economia brasileira é enorme. Estamos falando de 25% do PIB”, afirma Julio Mello, head comercial daXP. “O agro acaba puxando o desenvolvimento de outros setores, como indústria, serviços e comércio. Temos uma estratégia de expansão muito forte para região.”
No mês passado, a XP deu início a um road show por 16 cidades do Centro-Oeste para formar e contratar assessores de investimentos e, claro, buscar mais clientes. O ponto de partida foi Brasília. Nas próximas semanas, serão visitadas cidades expoentes do agronegócio na região, como Lucas do Rio Verde, Rondonópolis e Sorriso.
A empresa não tem uma meta definida para a contratação de novos assessores de investimentos no Centro-Oeste, mas o plano inicial é ampliar dos atuais 50 para 150 profissionais até o fim do ano. “Ou a gente exporta uma pessoa para lá ou formamos uma pessoa local. Eu acredito mais nessa segunda opção, de formar alguém que entenda e se comunique bem com aquelas pessoas da região”, afirma Mello.
Em potencial de ativos sob custódia na região, a estimativa da XP é subir de R$ 3 bilhões para R$ 6 bilhões em 2023.
A busca pela riqueza do Centro-Oeste também é um foco dos escritórios que miram as grandes fortunas. Desde o início do ano, o family office suíço Julius Baer criou uma posição exclusiva dentro da sua estrutura para buscar clientes da região.
“Na região, um dos objetivos é mostrar o conceito de family office, que é diferente e, de certa forma, novo na gestão de patrimônio”, diz Fernando Vallada, CEO do Julius Baer no Brasil. No País, o volume mínimo de patrimônio exigido pelo escritório é de R$ 25 milhões.
A presença da companhia na região faz parte de uma estratégia global da empresa. Com US$ 500 bilhões administrados em 26 locais, o Brasil, ao lado de outros nove mercados, foi escolhido como prioritário pela marca.
“Vemos que a região é composta por famílias que tiveram um crescimento patrimonial por meio de atividades empreendedoras de algumas gerações. E elas querem sofisticar não só os seus negócios, mas também a sua relação com o patrimônio”, afirma Cristiano Camara, diretor regional do Centro-Oeste do Julius Baer.
Cristiano Camara foi escolhido pelo suíço Julius Baer para cuidar da região Centro-Oeste.Foto
Nessa estratégia recente de ampliar a participação no Brasil, o Julius Baer também escolheu profissionais para Curitiba e para as regiões Norte e Nordeste.
Num movimento um pouco mais antigo, a Portofino Multi Family Office nomeou há dois anos um executivo de relacionamento para atender o Centro-Oeste em busca de famílias com patrimônio mínimo de R$ 5 milhões. Em 2023, a meta é crescer 80%. “Na gestão do patrimônio, a capilaridade é relevante. É importante para o investidor saber que tem uma pessoa, um escritório do lado dele”, afirma Daniel Barbuglio, responsável pela área de marketing do escritório.
Se há mais investidores ligados ao agronegócio, mais produtos financeiros para o setor foram desenvolvidos nos últimos anos. Em agosto de 2021, foram lançados osFiagros (Fundos de Investimento em Cadeias Agroindustriais). De acordo com a Anbima, já são 35 fundos dessa classe de produto, que somam quase R$ 10,6 bilhões em emissão.
“Os fundos do agronegócio ajudaram a facilitar a entrada dessa população no mercado. É algo que eles convivem no dia a dia”, afirma Helio Pio, sócio da Devant Asset.
O fundo criado pela Devant nasceu com patrimônio de R$ 70 milhões e tem na carteira ativos de grandes empresas do mercado de agronegócio. Contempla, por exemplo, operações de logísticas, armazenagem de grãos e distribuição de insumos.
“No nosso roadshow, a maior parte de interessados foi da região Centro-Oeste”, afirma Pio. “É mais fácil para quem está lá entender as operações do que para muita gente que a gente apresentava no Sudeste.” Um dos projetos financiados pelo produto da Devant foi a construção de um silo próximo ao Porto de Paranaguá.
Na EQI Investimentos, há uma equipe exclusiva destinada para a elaboração de produtos ligados ao agronegócio. Cerca de 10% a 12% dos 70 mil clientes da assessoria são de regiões com forte vocação para o agronegócio, em especial o Centro-Oeste. A demanda é tão relevante que a empresa passou a estruturar operações de dívidas para distribuir no mercado de capitais. “Recentemente, emitimos um CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio) para um pecuarista é há 3 mil investidores no papel”, afirma Eça Correia, co-head de agro da companhia.
A EQI tem cerca de R$ 22 bilhões em ativos sob custódia e maioria dos produtos que distribui (de 80% a 85%) são de terceiros. E o agro faz parte da estratégia da casa para aumentar a oferta de investimentos próprios. “Estamos colocando uma operação de agro por mês. Em dezembro, captamos R$ 28 milhões em um dia para uma planta de fertilizantes.” (O Estado de S.Paulo, 11/4/23)