Saúde
Remédio que pode salvar os rins é aprovado para doença do coração
Finerenona se torna base do tratamento contra doença silenciosa, subdiagnosticada e mortal
VEJA
Imagine um coração que ainda bombeia o sangue com a força normal, mas que perdeu a elasticidade para relaxar entre uma batida e outra — como um balão que enrijeceu e já não se estica direito para receber o ar. É essa a lógica por trás da insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada, a ICFEp: o músculo cardíaco não “falha” no sentido clássico, mas fica rígido demais para se encher de sangue de forma eficiente.
O resultado é que o sangue represa nos pulmões e no corpo, causando falta de ar, inchaço nas pernas e um cansaço desproporcional mesmo em esforços simples, como subir um lance de escada.
Nas últimas duas décadas, a proporção de pacientes com essa forma de insuficiência cardíaca subiu de 38% para 54% do total de casos, tendência que deve continuar por causa do envelhecimento da população e do aumento de hipertensão, obesidade e diabetes.
A obesidade, em especial, não é apenas mais um fator de risco cardiovascular tradicional: estudos identificaram uma relação independente e forte entre o excesso de peso e o desenvolvimento dessa forma de insuficiência cardíaca, diferente do que ocorre com as doenças ateroscleróticas – aquelas que entopem as artérias do coração, por exemplo.
A gordura visceral e a que se acumula ao redor do próprio coração parecem inflamar e enrijecer o músculo cardíaco por vias próprias — o que ajuda a explicar por que a doença cresce junto com as curvas globais de obesidade.
Diferente de um infarto, que aparece de forma abrupta, a ICFEp não tem um exame único que feche o diagnóstico. O diagnóstico depende da combinação de biomarcadores como BNP e NT-proBNP dosados no sangue, de exames de imagem do coração e da avaliação das pressões de enchimento do ventrículo esquerdo — e os sintomas (cansaço, inchaço, falta de ar) são facilmente confundidos com sedentarismo, envelhecimento normal ou obesidade mal controlada. Isso faz com que muitos pacientes só sejam identificados anos depois de a doença começar, quando já perderam qualidade de vida e capacidade funcional.
Por muito tempo, a ICFEp foi tratada como uma versão mais leve da insuficiência cardíaca. Não é. A mortalidade e as internações associadas a ela são comparáveis às da forma clássica, em que o coração perde força de bombeamento — só que, até recentemente, quase nenhum tratamento comprovadamente eficaz existia para essa população, porque diversos ensaios clínicos com remédios já consagrados na cardiologia simplesmente falharam nesse subgrupo de pacientes.
Foi nesse cenário que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou uma nova indicação da finerenona, da farmacêutica Bayer, para pacientes com insuficiência cardíaca cuja fração de ejeção do ventrículo esquerdo é igual ou superior a 40% — faixa que engloba tanto a forma preservada quanto a levemente reduzida.
O remédio já era aprovado desde 2023 para doença renal crônica associada ao diabetes tipo 2. E agora ganha uma segunda frente de atuação, unindo proteção renal e cardíaca.
A decisão se baseou no estudo de fase 3 FINEARTS-HF, com 6 mil pacientes com e sem diabetes, e no mecanismo de ação do medicamento: a finerenonabloqueia o receptor da aldosterona, hormônio que, em excesso, provoca inflamação, fibrose e rigidez tanto no coração quanto nos rins.
O estudo mostrou uma redução relativa de 16% no risco combinado de morte cardiovascular e piora da insuficiência cardíaca (internações e visitas de urgência). Em termos absolutos, isso significou passar de cerca de 24% de eventos no grupo placebo (sem a intervenção real) para 21% no grupo tratado — ou seja, é preciso tratar por volta de 31 pacientes para evitar um evento a mais. Nesse caso, o benefício veio, sobretudo, da redução de internações. O que já é algo a comemorar.