Algoritmo de redes capta momentos de tristeza e contribui para piora emocional

FOLHA


Recorrer às redes sociais, como Instagram e TikTok, durante momentos de crise pode aprofundar tristeza, afirmam especialistas, que recomendam resistir às telas - Martin Lelievre - 14.set.26/AFP

Se você está triste por alguma situação específica, como um término de relacionamento ou conflito no trabalho, passar mais tempo rolando o feed pode piorar seu estado emocional. O responsável é o algoritmo.

Uma análise feita por pesquisadores da UCLA, a Universidade da Califórnia, em Los Angeles, concluiu que o algoritmo capta o momento de tristeza de usuários nas redes sociais e usa rastros do comportamento digital para oferecer mais conteúdo sobre vulnerabilidade emocional.

Ou seja, com o tempo, as publicações da linha do tempo ficam mais nocivas e podem até atingir extremos, com postagens sobre automutilação e suicídio.

Términos amorosos ilustram bem o fenômeno. Uma pessoa retorna para casa após encerrar o ciclo afetivo e, triste, acessa a rede social. Se depara com uma publicação que se mostra acolhedora e passa um tempo lendo ou assistindo. Pode ser um vídeo sobre 'coisas que você deve dizer durante um término', por exemplo, algo que reforce uma ideia não necessariamente verdadeira.

O tempo de audiência mostra à plataforma que você tende a consumir aquilo, e as publicações começam a se multiplicar. Chega uma segunda publicação (hipotética), dessa vez listando 'erros que levam ao término'. O usuário assiste, talvez para entender se cometeu algum. O algoritmo dá uma próxima investida: 'como recuperar seu (sua) ex'.

Essa interação inicial é o suficiente para saturar a timeline com conteúdos similares. Segundo o estudo da UCLA, que analisou mais de 8 mil vídeos do TikTok, 45% de todas as recomendações diárias do usuário ocorrem a partir de pouca interação.

Isso acontece mesmo sem pesquisa manual sobre o tema, pois a permanência na tela é o sinal mais forte para o algoritmo. Quanto mais se consome, mais deve consumir. Daí decorrem os sintomas.

Um dos principais é a ruminação psicológica, segundo especialistas que atuam com o impacto da tecnologia na saúde mental.

'O algoritmo não regula a emoção do usuário, mas o momento emocional faz com que ele entenda os conteúdos que ele quer ver. A pessoa tem uma dor, encontra confirmação para ela e passa a ruminar. Pensa mais do que deveria no assunto', explica Renato Gallo, colaborador e pesquisador do Programa Ambulatorial dos Transtornos do Impulso do Instituto de Psiquiatria da USP (Universidade de São Paulo).

Para o psicólogo Vagner Rocha, isso gera uma falsa sensação de que a pessoa está se autoeducando, se resolvendo. Mas acaba permanecendo no momento de tristeza.' Essa ruminação, se persistente, mune o algoritmo de recursos para piorar as indicações.'

A pesquisa aponta para isso. Uma única sessão de buscas ou visualizações sobre um problema emocional deixa rastros no perfil, e o algoritmo pode continuar recomendando vídeos sobre o tema, mesmo que o usuário passe a evitá-lo.

O sistema também não diferencia adequadamente quem busca ajuda de quem expressa desespero. Embora usuários que procuram apoio recebam mais vídeos de acolhimento, conteúdos potencialmente nocivos continuam aparecendo ao lado dos educativos.

O estudo mediu o tempo até a primeira exposição a vídeos nocivos durante a navegação. Já no 10º vídeo exibido, menos de 29% das contas engajadas continuavam livres desse tipo de material. Ao chegar ao 40º vídeo da sessão, entre 98,5% e 100% de todas as contas haviam recebido pelo menos um vídeo com potencial de dano.

Os mais frequentes eram publicações de positividade tóxica e autodiagnóstico sem base científica, seguidas por desinformação sobre tratamentos e materiais explícitos sobre suicídio e automutilação.

'Esse tipo de conteúdo pode levar a diagnósticos equivocados, preocupações desnecessárias e gastos com tratamentos inadequados, além de afastar pessoas de intervenções necessárias', diz Rodrigo Menezes Machado, psiquiatra e coordenador do Grupo de Dependências Tecnológicas do Instituto de Psiquiatria da USP.

Machado também alerta para o risco do efeito Werther (ou efeito contágio), pelo qual a exposição a conteúdos sobre suicídio pode influenciar o comportamento de outros usuários por sugestão.

'Um exemplo é o que ocorreu após a série da 13 Reasons Why, da Netflix, sobre suicídio. Houve um aumento subsequente de tentativas de suicídio, especialmente entre pessoas vulneráveis. O mesmo pode acontecer com a disseminação desse tipo de conteúdo nas redes', afirma.

Trata-se de um problema difícil de superar. O modelo das redes sociais, em termos de design e funcionamento, é moldado para manter o usuário preso, diz Gallo.

'Aliado ao algoritmo, essa combinação vai aumentar o tempo de tela despercebidamente. E, para a rede social, não importa seu estado emocional; importa sua presença no ambiente o máximo de tempo possível', afirma.

Os problemas se tornam cumulativos. Mais tempo na tela equivale a mais dificuldade para recusar. Parte disso se explica pela estimulação de dopamina do cérebro.

Gallo compara a atividade da dopamina a um marca-texto. Se, por algum motivo, o cérebro entende que há prazer em determinada atividade, marca aquilo como legal. A partir de então, tudo tende a levá-lo de volta àquele ambiente; cria-se a dependência, a sensação de que, para estar bem, é preciso estar ali.

Por outro lado, há possibilidade de aumento de sintomas, como ansiedade e fadiga. Terminar um dia após passar horas nas redes sociais gera uma sensação de escassez de energia. De fato: a julgar pelo funcionamento da dopamina, poucas coisas poderão ter tanta graça quanto scrollar o feed.

'O sistema de recompensa é muito primitivo, desenvolvido para sinalizar oportunidades de gratificação no ambiente. Estamos expondo esse sistema a um mundo para o qual não foi desenhado para estar, em que existe abundância de estímulos prazerosos', afirma Machado.

Rocha afirma ser fundamental ter postura crítica frente ao conteúdo entregue, mesmo que ele venha contra a vontade do usuário. 'A vida é muito mais complexa do que o vídeo curto da rede social. Entender que nem tudo que você vê te serve, pois cada realidade tem um contexto, é fundamental', diz.

O psicólogo indica atividades que podem ser benéficas durante os momentos de crise: fazer exercício físico, mais leve que seja, e dar preferência a atividades fora do ambiente virtual, como encontros com amigos.

Machado sugere medidas para reduzir o tempo nas redes sociais, como programar o bloqueio de aplicativos em determinados horários ou usar ferramentas que adicionam etapas ao acesso, como a exigência de senhas.

'Qualquer recurso que estimule a autogestão do indivíduo é melhor do que nada. Quanto mais barreiras colocamos entre a vontade de abrir o Instagram e o acesso ao aplicativo, mais tempo damos ao cérebro para avaliar se queremos realmente realizar aquele comportamento', afirma.

'É preciso, enfim, questionar se o tempo que passamos na rede social decorre de um conforto oferecido pelo uso, ou, se estamos nos tornando escravos', conclui.



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