Economia
Canetas emagrecedoras mudam demanda e abrem espaço para grãos de maior valor agregado
Aveia, trigo mourisco e proteína de soja ganham procura enquanto produtores buscam certificação, sustentabilidade e parcerias para fugir da lógica das commodities
BATANEWS/OPR
A mudança no comportamento alimentar associada às canetas emagrecedoras começa a alcançar também as lavouras. O efeito ainda é discreto nas estatísticas, mas já pode ser percebido por produtores que trabalham com grãos destinados a alimentos de maior valor agregado. Aveia, trigo mourisco e proteína de soja estão entre os produtos que passaram a registrar maior procura, enquanto o trigo enfrenta movimento contrário em alguns mercados.
Produtor Ivo Arnt cultiva aveia, cevada, milho, soja e trigo mourisco no município de Tibagi, além de integrar a CT de Cereais, Fibras e Oleaginosas do Sistema Faep: “O aumento ainda não é significativo a ponto de aparecer nas estatísticas. Mas existe, principalmente para a aveia, que vai para as barras de cereais, e para a proteína de soja” – Foto: Divulgação/Sistema Faep
O produtor Ivo Arnt, de Tibagi, nos Campos Gerais, cultiva aveia, cevada, milho, soja e trigo mourisco e integra a Comissão Técnica de Cereais, Fibras e Oleaginosas do Sistema Faep. Sua propriedade está entre as poucas do Brasil com certificação internacional para produção de alimentos. “O aumento ainda não é significativo a ponto de aparecer nas estatísticas. Mas existe, principalmente para a aveia, que vai para as barras de cereais, e para a proteína de soja. Sentimos uma procura maior neste ano', relata Arnt.
O produtor observa que a mudança não começou com os medicamentos. Segundo ele, a procura por alimentos associados à saúde vem crescendo gradualmente há cerca de uma década, impulsionada também pela expansão da cultura das academias e de dietas voltadas ao bem-estar. As canetas emagrecedoras, nesse contexto, acrescentaram um novo componente a uma transformação que já estava em curso.
Aveia muda de público Uma das mudanças percebidas por Arnt está no perfil de quem consome determinados grãos. A aveia, tradicionalmente associada a idosos e à alimentação infantil, passou a ocupar espaço em produtos consumidos por um
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público mais jovem, como barras proteicas e preparações voltadas à alimentação fitness.
Ao mesmo tempo, o produtor percebe uma redução na procura por trigo, que está presente em produtos como pães, massas e biscoitos. “Quem está emagrecendo com as canetinhas não está mais consumindo pão, macarrão e bolacha. Está consumindo mais aveia, trigo mourisco (que é sem glúten) e proteína de soja', afirma.
A percepção do produtor indica uma possível mudança na composição da demanda dentro da própria agricultura. Em vez de uma alteração generalizada no consumo de grãos, determinados produtos ganham espaço por estarem associados a novos hábitos alimentares, enquanto outros podem perder participação em alguns segmentos.
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Para o produtor, essa transformação reforça a necessidade de olhar além do volume produzido. A oportunidade está em identificar demandas específicas e entregar produtos com características que possam ser reconhecidas e remuneradas pela indústria e pelo consumidor.
Da commodity ao valor agregado É nesse ponto que Arnt vê uma das principais oportunidades para o campo. Em vez de atuar exclusivamente no mercado de commodities, o produtor pode buscar diversificação, profissionalização, certificações e parcerias com empresas de alimentos.
O próprio agricultor trabalha nesse modelo, mantendo relações comerciais
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com empresas como Nestlé e Mãe Terra. “Existe uma remuneração diferenciada para a aveia de qualidade, certificada e produzida com sustentabilidade. Tem valor agregado', explica.
A certificação passa a funcionar, nesse modelo, como uma forma de comprovar atributos que não são percebidos apenas pela aparência do grão. Entre os mecanismos citados por Arnt estão a certificação da Mesa Redonda de Soja Responsável (RTRS, na sigla em inglês), voltada à sustentabilidade internacional, e a Regenera, relacionada à agricultura regenerativa.
Esses selos podem funcionar como porta de entrada para mercados mais exigentes, especialmente na Europa, onde atributos relacionados à sustentabilidade e aos processos de produção fazem parte dos critérios de compra de determinados produtos.
O que chega ao rótulo A mudança, portanto, não termina na lavoura. Ela acompanha o produto até a indústria e chega ao consumidor por meio do rótulo e das características destacadas nas embalagens. “O consumidor desses produtos busca isso no rótulo, na gôndola do supermercado. Esse mercado existe e vai continuar a crescer', ressalta Arnt.
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Nesse cenário, a influência das canetas emagrecedoras sobre os hábitos alimentares se soma a uma tendência anterior de valorização de alimentos associados à saúde. Para a agricultura, o movimento abre espaço não necessariamente para produzir mais grãos, mas para produzir produtos capazes de atender demandas específicas e capturar maior valor ao longo da cadeia.
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