Agricultura 4.0 pode ampliar desigualdades entre mulheres rurais, aponta estudo

Pesquisa de Embrapa e Unicamp identifica barreiras de acesso à tecnologia e destaca competências desenvolvidas por produtoras.

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Foto: Roberto Dziura Jr./AEN

A transformação digital do campo pode abrir novas oportunidades para as mulheres rurais, mas também corre o risco de ampliar desigualdades já existentes. É o que aponta o capítulo Women in Agriculture 4.0: Inequalities, Competencies, and Sociotechnical Innovation, publicado pela Springer no livro Agriculture 4.0: Towards a New Agri-Food Ecosystem, elaborado por pesquisadoras e analistas da Embrapa e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

O estudo analisa como a digitalização da agricultura afeta a participação das mulheres e mostra que fatores como gênero, classe social, raça e localização territorial se combinam para determinar as oportunidades de acesso e uso das novas tecnologias. A pesquisa também chama atenção para competências digitais desenvolvidas por mulheres que, muitas vezes, permanecem pouco reconhecidas.

O trabalho foi realizado por meio de uma revisão temática direcionada da literatura científica e institucional, complementada pela análise de casos ilustrativos de diferentes regiões do mundo. A análise foi organizada em torno de quatro eixos: barreiras estruturais; competências digitais; inovação e liderança feminina; e lacunas nas políticas públicas e de dados.

Para Carla Geovana do Nascimento Macário, da Embrapa Agricultura Digital, discutir Agricultura 4.0 exige ir além da simples disponibilização de ferramentas digitais. A transformação tecnológica precisa considerar as condições sociais e territoriais em que as mulheres vivem e trabalham.

Segundo a pesquisadora, não basta levar tecnologia ao campo. É necessário compreender quem consegue acessá-la, utilizá-la e transformá-la em oportunidades de autonomia, renda e participação.

A análise mostra que as mulheres rurais não são apenas usuárias das tecnologias. Elas também desenvolvem estratégias próprias para lidar com os desafios da digitalização e já contribuem para modificar e adaptar as ferramentas às necessidades locais. Conhecimentos construídos no cotidiano, redes de colaboração e experiências coletivas aparecem, nesse contexto, como elementos importantes para a inovação.

Márcia Fugisawa, analista da Embrapa Agricultura Digital, ressalta a importância de reconhecer essas competências. Segundo a perspectiva apresentada no capítulo, as iniciativas de inclusão digital precisam deixar de enxergar as mulheres rurais apenas como destinatárias de ações formativas e tecnologias. Para Fugisawa, reconhecer as mulheres como produtoras de conhecimento e inovação é fundamental para que a transformação digital da agricultura seja construída de maneira mais inclusiva.

A chamada Agricultura 4.0 compreende o uso integrado de tecnologias digitais utilizadas para aprimorar os processos produtivos, ampliar a capacidade de monitoramento e apoiar a tomada de decisões no campo. Entre elas estão plataformas digitais, aplicativos, sistemas de rastreabilidade, ferramentas de análise de dados e outras soluções tecnológicas integradas.

Entretanto, o acesso a essas tecnologias não ocorre de maneira uniforme. O estudo identifica barreiras relacionadas à conectividade; ao acesso à terra, ao crédito, à assistência técnica e a outros recursos produtivos; à dependência de financiamento; e às normas culturais que podem restringir a participação das mulheres.

A sobrecarga do trabalho doméstico e das atividades de cuidado também reduz o tempo disponível para que muitas mulheres participem de ações de formação, iniciativas de inovação e espaços de decisão. Somam-se a isso a baixa representação feminina na governança das tecnologias e a insuficiência de dados desagregados por sexo, necessários para orientar e avaliar políticas públicas.

Tércia Zavaglia Torres, da Gerência Geral de Gestão de Pessoas, da Embrapa, defende uma abordagem baseada na chamada inclusão sociotécnica. Nessa perspectiva, a inclusão digital não deve se restringir ao acesso a equipamentos ou à internet, mas deve envolver também a formação, a adequação das tecnologias aos contextos locais e a participação das mulheres nas decisões sobre seu desenvolvimento, uso e governança.

Lucimar Santiago de Abreu, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente, destaca a necessidade de valorizar os conhecimentos construídos pelas mulheres nos próprios territórios.

Segundo Abreu, os conhecimentos locais e as práticas desenvolvidas pelas mulheres precisam ser reconhecidos como parte dos processos de inovação. Nessa perspectiva, a tecnologia não chega pronta ao território: ela também é produzida, apropriada, adaptada e transformada pelas pessoas que a utilizam, com base em seus conhecimentos, experiências e necessidades locais.

O capítulo apresenta casos ilustrativos de diferentes regiões do mundo para mostrar como as mulheres vêm utilizando tecnologias digitais para ampliar sua participação nas atividades econômicas e sociais. Entre as experiências analisadas estão sistemas de rastreabilidade baseados em blockchain, cooperativas lideradas por mulheres, startups, programas de alfabetização e formação digital, além de aplicativos voltados às atividades agrícolas.

Os casos incluem experiências desenvolvidas na América Latina, na África e na Ásia, como cooperativas e coletivos de mulheres, iniciativas de comercialização digital, sistemas de rastreabilidade, programas de formação e uso de aplicativos móveis.

Essas experiências mostram que a tecnologia pode contribuir para ampliar a autonomia das mulheres, fortalecer organizações coletivas e criar novas possibilidades de inserção em mercados.

Um dos exemplos abordados é o uso de ferramentas digitais de rastreabilidade para registrar e disponibilizar informações sobre a origem dos produtos, os modos de produção e as diferentes etapas das cadeias produtivas. Além de torná-las mais transparentes, essas ferramentas permitem que as produtoras deem maior visibilidade aos seus produtos, fortaleçam a relação de confiança com os consumidores e ampliem suas possibilidades de acesso aos mercados seus produtos.

No entanto, as autoras alertam que a tecnologia, sozinha, não elimina desigualdades. Sem políticas públicas, infraestrutura, formação e acesso a recursos, existe o risco de que a Agricultura 4.0 beneficie principalmente os grupos que já possuem melhores condições de acesso.

Os casos também mostram que os resultados dessas iniciativas não são automáticos nem uniformes. Problemas de conectividade, dependência de financiamento externo, dificuldades de acesso a dispositivos e normas culturais que limitam a liderança feminina continuam afetando a continuidade e o alcance das experiências.

Outro ponto central do trabalho é a necessidade de ampliar a participação feminina não apenas no uso, mas também no desenvolvimento das tecnologias e na formulação de políticas públicas.

Para as autoras, uma Agricultura 4.0 socialmente justa precisa incorporar princípios de justiça de dados, valorizar competências locais e garantir que as mulheres tenham espaço nas decisões relacionadas à transformação digital do setor.

A justiça de dados envolve transparência na coleta e no uso das informações, distribuição mais equitativa dos benefícios gerados pelos dados e participação das mulheres nas decisões sobre sua governança. Também requer a produção de indicadores capazes de tornar visíveis as desigualdades de gênero no acesso, no uso e na apropriação das tecnologias.

Essa discussão também amplia o conceito de inovação. Em vez de considerar apenas novas máquinas, softwares ou sistemas, o estudo propõe reconhecer também as soluções desenvolvidas a partir das necessidades e experiências das próprias comunidades.

A perspectiva é particularmente importante em áreas rurais onde a conectividade ainda é limitada. Nessas situações, estratégias coletivas e conhecimentos locais podem ajudar a superar parte das barreiras impostas pela falta de infraestrutura.

O estudo também situa a transformação digital no campo a políticas e iniciativas internacionais voltadas à promoção da igualdade de gênero, inclusão digital e desenvolvimento rural, destacando a atuação de organismos como a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), a ONU Mulheres e a Comissão Europeia.

Segundo as autoras, a digitalização da agricultura precisa ser acompanhada por políticas sensíveis às diferenças de gênero e às características dos territórios. Essas políticas devem articular investimentos em conectividade, formação e acesso a recursos financeiros à criação de espaços que favoreçam a participação das mulheres. Também precisam ser apoiadas por dados e indicadores que permitam acompanhar os resultados alcançados.

A pesquisa reforça que a Agricultura 4.0 não representa apenasuma mudança tecnológica, mas uma transformação social. Para que seus benefícios sejam distribuídos de maneira mais justa, diferentes grupos devem ter condições efetivas de participar das decisões e se beneficiar das novas tecnologias.

Nesse contexto, as mulheres não podem ser consideradas apenas consumidoras de tecnologias. Elas precisam ser reconhecidas também como produtoras de conhecimento, inovadoras e protagonistas das decisões que definirão a agricultura do futuro.

Publicado em setembro de 2026, o capítulo reúne pesquisadoras e analistas vinculadas à Embrapa Agricultura Digital, à Embrapa Meio Ambiente e ao Centro de Estudos sobre Urbanização para o Conhecimento e a Inovação (CEUCI) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O trabalho, de Carla Geovana Macário, Márcia Izabel Fugisawa, Lucimar Abreu, Laura Carvalho e Tércia Torres. contou ainda com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e pode ser acessado aqui.



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