Agricultura
Mandioca se valoriza com oferta restrita e disputa da indústria pela matéria-prima
Oferta de raízes abaixo da demanda industrial, menor comercialização pelos produtores e avanço do plantio sustentam a alta dos preços e pressionam também as cotações de fécula e farinha
BATANEWS/BATANEWS/REDAçãO
O mercado de mandioca atravessa um momento de valorização, impulsionado principalmente pela menor disponibilidade de raízes diante da demanda das indústrias. O desequilíbrio entre oferta e procura tem intensificado a disputa pela matéria-prima entre fecularias e farinheiras e contribuído para a elevação das cotações em diferentes regiões produtoras.
Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), o preço médio da raiz avançou pela sexta semana consecutiva e alcançou o maior patamar nominal do ano. O movimento é resultado, principalmente, da retração dos produtores na comercialização, sobretudo de mandioca de primeiro ciclo, e do avanço das atividades de plantio, que tem ocorrido em detrimento da colheita.
Na prática, parte dos agricultores tem optado por postergar a venda das raízes, enquanto concentra esforços no preparo do solo, na seleção de manivas e no plantio da nova safra. Com isso, a chegada de matéria-prima às indústrias permanece abaixo do necessário para atender plenamente a demanda.
O comportamento já vinha sendo observado pelo Cepea nas últimas semanas. Em julho, o Centro de Pesquisas apontou que a disponibilidade cada vez menor de lavouras de segundo ciclo, somada ao baixo interesse pela comercialização de raízes mais novas, limitava o avanço da colheita. Na semana de 6 a 10 de julho, por exemplo, a média nominal a prazo da tonelada de mandioca posta fecularia chegou a R$ 471,05, com valorização semanal de 2%.
Com menos mandioca disponível, as empresas passaram a disputar de forma mais intensa os lotes ofertados pelos produtores. Esse movimento é particularmente relevante porque a indústria precisa manter o processamento para atender aos compromissos comerciais e recompor estoques de derivados.
O Cepea já havia destacado, em março, que a oferta restrita e a demanda aquecida dificultavam a manutenção ou ampliação do ritmo de moagem das indústrias. Naquele período, a necessidade de recomposição dos estoques de fécula também estimulava a procura por raízes.
Agora, a menor disponibilidade volta a limitar o processamento. Com menos matéria-prima entrando nas fábricas, a produção de fécula e farinha também fica condicionada ao ritmo de recebimento das raízes.
A pressão sobre a matéria-prima se espalha por toda a cadeia. De acordo com pesquisadores do Cepea, a menor disponibilidade de mandioca tem limitado tanto a produção quanto a formação de estoques de fécula e farinha, contribuindo para a valorização desses derivados.
Esse cenário é importante porque a mandioca não é comercializada apenas como raiz. Uma parcela significativa da produção abastece as indústrias de fécula e farinha, que dependem de um fluxo regular de matéria-prima para manter suas operações.
Quando a oferta de raízes diminui, as indústrias precisam disputar os lotes disponíveis, enquanto a menor produção de derivados reduz a capacidade de recomposição dos estoques. O resultado é uma cadeia mais ajustada e com maior resistência à queda dos preços.
Outro fator que ajuda a explicar a valorização é a postura mais cautelosa dos mandiocultores. O Cepea aponta que a rentabilidade reduzida, especialmente para raízes de primeiro ciclo, tem contribuído para a retração das vendas.
Além disso, os produtores enfrentam custos elevados, menor disponibilidade de terras e valores elevados de arrendamento. Esses fatores podem influenciar tanto o ritmo de comercialização quanto as decisões sobre a área que será destinada à cultura.
Em junho, o Cepea já apontava que muitos produtores sinalizavam intenção de reduzir a área cultivada, diante da menor disponibilidade de terras, dos custos de arrendamento e dos maiores gastos com insumos.
Essa possibilidade merece atenção porque uma eventual redução da área plantada pode representar um fator adicional de sustentação dos preços no médio prazo, caso a oferta futura não acompanhe a demanda da indústria.
O calendário agrícola também exerce papel importante no mercado atual. Com o avanço do plantio, os produtores direcionam mão de obra e máquinas para as atividades de implantação das novas lavouras, reduzindo o ritmo de colheita e comercialização.
O Cepea destaca que essa combinação entre plantio prioritário, menor disponibilidade de raízes de segundo ciclo e retração na venda de mandioca mais nova tem mantido a oferta abaixo da demanda industrial.
As condições climáticas também entram no radar. Em análises anteriores, o Centro de Pesquisas chamou atenção para os possíveis impactos de alterações no regime de chuvas sobre o desenvolvimento das lavouras e sobre o fluxo de comercialização no Centro-Sul e no Nordeste.
Os dados regionais do Cepea mostram que Mato Grosso do Sul também vem registrando preços firmes. Na semana de 13 a 17 de julho, a mandioca posta fecularia foi negociada, em média, a R$ 485,98 por tonelada no extremo-sul do Estado e a R$ 439,57 por tonelada no sudeste. Na semana anterior, as médias eram de R$ 484,79 e R$ 429,18, respectivamente.
No mesmo período, a fécula de mandioca apresentou médias de R$ 2.795,13 por tonelada no extremo-sul e R$ 2.863,04 por tonelada no sudeste de Mato Grosso do Sul. Os números reforçam que a valorização da raiz também encontra reflexos no mercado de derivados.
A perspectiva para as próximas semanas permanece de atenção ao comportamento da oferta. Enquanto os produtores mantiverem o plantio como prioridade e a comercialização de raízes mais novas continuar retraída, a disponibilidade de matéria-prima tende a permanecer limitada.
Por outro lado, a intensidade da demanda industrial e o comportamento dos estoques de fécula e farinha serão determinantes para definir a força da valorização. Uma eventual melhora no ritmo de colheita e nas entregas às indústrias poderia aliviar a pressão sobre os preços. Se isso não ocorrer, a disputa pela mandioca tende a continuar favorecendo os produtores.
Outro ponto de atenção está na decisão de plantio para os próximos ciclos. Caso a área cultivada seja reduzida em função da rentabilidade da atividade, dos custos de produção e da disponibilidade de terras, o mercado poderá enfrentar uma oferta mais ajustada adiante.
A própria Conab incluiu a mandioca entre os produtos contemplados pelos preços mínimos nacionais para as safras 2026/2027 e 2027, definidos pelo Ministério da Agricultura e Pecuária no âmbito da Política de Garantia de Preços Mínimos (PGPM).
Assim, o mercado de mandioca entra em uma fase de maior equilíbrio entre oferta e demanda, mas com a balança atualmente favorável aos vendedores. A combinação de menor disponibilidade de raízes, produtores mais cautelosos, avanço do plantio e necessidade de abastecimento das indústrias mantém o ambiente de preços firmes e reforça a valorização tanto da matéria-prima quanto de seus principais derivados.
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