Trump tem duas guerras em curso: uma contra o Irã, outra contra o Brasil, diz ex-embaixador nos EUA

A CartaCapital, Roberto Abdenur afirma não haver mais possibilidade de diálogo: ‘O Brasil sempre tomou a iniciativa’

CARTA CAPITAL


O presidente dos EUA, Donald Trump, e o presidente Lula. Fotos: Brendan Smialowski e Evaristo Sá/AFP

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, destruiu a ordem econômica vigente desde o fim da Segunda Guerra Mundial, declarou guerra política e comercial ao Brasil e interditou o diálogo ao impor o novo tarifaço de 25% contra produtos brasileiros. A análise é de Roberto Abdenur, ex-embaixador do Brasil em Washington, em entrevista a CartaCapital.

Para o diplomata, Trump instituiu um mundo de barbárie, marcado pela lei da força política, econômica, tecnológica e militar — tudo sem freios. Rompeu, assim, um período que propiciou relativas paz, estabilidade e prosperidade a muitos países, inclusive aos Estados Unidos.

Sob o segundo mandato do republicano, tudo mudou. “Os Estados Unidos conduzem duas guerras no momento: uma militar, armada, contra o Irã; outra, política e econômica, contra o Brasil', disse Abdenur. “Ele impôs tarifas a 60 países, mas o Brasil virou um alvo preferencial.'

As mais recentes agressões do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, ilustram a “preferência' pelo Brasil. Pouco depois de o governo norte-americano confirmar a nova sobretaxa, o auxiliar de Trump foi às redes sociais para atacar Lula: disse que o governo brasileiro não negociou “de boa-fé' e que o presidente “colocou seu próprio ego à frente de um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro'.

Ato contínuo, o chanceler Mauro Vieira chamou a ofensiva de “grosseira e arrogante' e afirmou que a Casa Branca se incomoda com o fato de o Brasil não se curvar a “pretensões desmedidas e demandas irrazoáveis'. Reforçou, por fim, que os norte-americanos mantêm um vultoso superávit na balança comercial com os brasileiros — 424 bilhões de dólares nos últimos 15 anos.

Abdenur relembra ter servido duas vezes como diplomata nos Estados Unidos: ainda jovem, entre 1973 e 1975, e como embaixador em Washington, entre 2004 e 2007. “Conduzi assuntos delicados de comércio, dívida externa, negociações com o Mercosul etc. As dificuldades estavam em certos setores. Agora, não. Temos um ataque across the board, que cruza os limites. É o pior momento na história das relações Brasil-Estados Unidos.'

Se as justificativas de Trump não se sustentam no campo comercial e se o responsável pela política externa norte-americana não hesita em atacar Lula, como o governo brasileiro poderia retomar o diálogo para reverter o tarifaço?

“Foi o Brasil que sempre tomou a iniciativa de buscar a negociação, até que recentemente se fecharam as portas. Então, não há espaço para diálogo nem negociação', resume Abdenur. Washington, acrescenta o ex-embaixador, age em relação ao Brasil com base em impulso político e ignora o fato de que Lula procurou Trump diversas vezes, por telefone e presencialmente. “Se se o lado americano não se contiver, as relações, que agora estão no mais baixo nível, chegarão ao fundo de um poço inesgotável.'

O componente político e o desprezo de Trump pela ordem internacional mantêm à espreita, por fim, um fantasma por vezes minimizado: “Está em curso um processo de interferência nas eleições, com o esforço de Trump e, sobretudo, de Rubio para prestigiar Flávio Bolsonaro', afirmou Roberto Abdenur. “Trump interferiu em diferentes países manifestando apoio a candidatos de direita. No caso do Brasil a situação é muito mais séria, porque não é uma manifestação aqui ou acolá. É um processo em curso, é como um exército atacando um país vulnerável, com toda a agressividade.'

Em 2022, quando havia no Brasil um movimento para manter Jair Bolsonaro (PL) no poder independentemente do resultado das urnas — entendimento chancelado pelo Supremo Tribunal Federal —, o então presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, reconheceu rapidamente a vitória de Lula “em uma eleição livre, justa e digna de confiança'. A um mês do início oficial da campanha, o cenário é completamente distinto e ainda pode piorar — vide a ameaça de mais um tarifaço a ser aplicado nos próximos dias.



COMENTÁRIOS