Pílula que pode mudar tratamento do câncer de pâncreas dobra tempo de vida de pacientes

Droga em estudo atua em mutação presente em 90% dos casos de adenocarcinoma pancreático; houve redução de dor e de impactos na qualidade de vida dos pacientes

VEJA


Reconhecimento: resultado do estudo foi aplaudido por quase um minuto por participantes de sessão especial na Asco (Paula Felix/VEJA)

CHICAGO* – Entre os cânceres, o tumor de pâncreas é considerado o mais letal e desafiador. Com sobrevida de cerca de um ano após o diagnóstico, ainda enfrenta o gargalo da limitação de tratamentos que realmente controlem a doença e reduzam impactos para a vida do paciente, como dor e deterioração da saúde. Na reunião anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco) que reúne 45 mil especialistas e pesquisadores em Chicago, nos Estados Unidos, foi anunciada uma esperança: um comprimido diário que quase dobrou a sobrevida de pacientes com adenocarcinoma ductal pancreático metastático que já tinham passado por tratamento.

O estudo de fase 3 RASolute-302, publicado no periódico The New England Journal of Medicine, foi realizado com 500 pacientes da América do Norte, Europa e Ásia que foram divididos em dois grupos: um foi tratado com quimioterapia e o outro recebeu a pílula diária em teste daraxonrasibe, da farmacêutica Revolution Medicines, que atua contra a mutação responsável por mais de 90% dos casos de adenocarcinoma ductal pancreático.

O medicamento em estudo inibe a atuação de mecanismos que interagem com a atividade da proteína RAS com alterações, quando ela leva à proliferação das células cancerígenas e ao crescimento do tumor, mas foi testado também em pacientes sem a mutação.

A abertura do estudo mostrou que a sobrevida global dos pacientes com a mutação RAS foi de 13,2 meses com daraxonrasibe e de 6,7 meses com quimioterapia. Na comparação para sobrevida livre de progressão da doença, o resultado foi de 7,3 meses ante 3,5 meses dos pacientes em quimioterapia.

Diante dos achados, apresentados em sessão especial neste domingo, 31, oncologistas que acompanhavam a apresentação da plenária no McCormick Place Convention Center aplaudiram de pé por quase um minuto o pesquisador Brian Wolpin, diretor do centro de pesquisa do câncer de pâncreas e do centro de câncer gastrointestinal Hale Family Center, do Dana-Farber Cancer Institute.

“O adenocarcinoma pancreático metastático é um dos mais desafiadores e letais tipos de câncer e com opções terapêuticas limitadas”, explicou o autor do estudo. “Os resultados endossam o tratamento como um novo padrão de cuidado para pacientes que já receberam tratamento”, completou Wolpin.

Os pesquisadores observaram ainda que os pacientes tratados com o comprimido em teste tiveram menos efeitos colaterais do que os que seguiram com a quimioterapia. Eles apareceram em 43,6% dos participantes que receberam daraxonrasibe, principalmente erupção cutânea (13,7%) e estomatite (12%), e em 57,5% dos que estavam no grupo controle — diminuição de neutrófilos (18,2%) e anemia (16,4%) —.

Em relação à quimioterapia, também houve um atraso considerado significativo para o agravamento de quadros de dor e da deterioração do estado geral de saúde e da qualidade de vida dos pacientes.

“No momento, os dados do estudo mostram que o paciente tem mais chances de a doença ficar controlada, reduz significativamente as dores, que é um grande problema do câncer de pâncreas”, explica Pedro Uson, médico oncologista especialista em aparelho digestivo do Einstein Hospital Israelita. “No futuro, acredito que a medicação irá evoluir e será incorporada ao período pré e pós operatório, porque corta o que está fazendo o tumor crescer. Se tira o tumor primário e retira o que alimenta, terá mais chances de cura. Então, acredito que iremos curar o câncer de pâncreas.”

Isso se refletiu na descontinuação do tratamento. Entre os voluntários em tratamento com a droga, o índice foi de 1,2%. No grupo da quimioterapia, foram 11,2%.

Os próximos passos incluem a submissão à agência reguladora dos Estados Unidos, a FDA, e o andamento de testes para utilização do medicamento como primeira opção de tratamento, bem como o uso para outros tumores relacionados à proteína RAS, como o câncer de pulmão e o colorretal.

*A repórter viajou para a reunião anual da Asco a convite da Johnson & Johnson Innovative Medicine no Brasil



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