Após derrota para Flávio, Lula vai defender soberania nacional e avalia contato direto com Trump

Planalto quer articular uma cooperação com os Estados Unidos voltada ao combate ao crime organizado.


Flávio Bolsonaro em encontro com Trump; Lula em reunião com Trump — Foto: Reprodução

Surpreendido pela decisão do governo Trump de classificar PCC e Comando Vermelho como Organizações Terroristas Estrangeiras, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não gostou da medida e pretende fazer uma defesa da soberania nacional.

Lula também avalia fazer um telefonema para conversar diretamente com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre o assunto.

Auxiliares do presidente brasileiro entendem que Trump pode não ter participado diretamente da formulação da medida, e que a decisão foi influenciada pela ala mais radical do governo norte-americano.

Além disso, o Planalto quer articular uma cooperação com os Estados Unidos voltada ao combate ao crime organizado.

De todo modo, o petista entende que a decisão representa que o governo americano pode ter tomado partido de Flávio Bolsonaro. O senador e pré-candidato à Presidência esteve na Casa Branca nesta semana e defendeu junto a Trump a adoção a medida.

Para a equipe de Lula, Trump deveria ter negociado ou pelo menos avisado o governo brasileiro antes que seu Departamento de Estado, chefiado por Marco Rubio, anunciasse a medida. O Itamaraty e o Ministério da Justiça foram surpreendidos com a decisão.

A forma como a medida foi divulgada desagradou o presidente e foi avaliada como uma sinalização de que Trump pode tentar dar apoio a Flávio Bolsonaro na campanha eleitoral.

Governo quer Trump neutro

O governo brasileiro busca uma neutralidade de Trump no processo eleitoral, mas sabe também que pode explorar politicamente um eventual apoio do americano ao filho de Bolsonaro. Afinal, a imagem de Trump junto à população brasileira é muito negativa.

O presidente passou a noite de quinta-feira (28) em contato com integrantes da cúpula do governo para discutir a resposta do Brasil à decisão do Departamento de Estado dos Estados Unidos envolvendo o PCC e o Comando Vermelho.

Na linha do que Celso Amorim, seu assessor internacional, divulgou, a orientação dentro do Palácio do Planalto é a seguinte: cooperação, sim; intervenção, jamais.

Lula conversou nesta quinta-feira (28) com o chanceler Mauro Vieira, com o número 2 da Assessoria Especial da Presidência, Audo Faleiro — já que Celso Amorim está retornando da Rússia —, com o ministro da Justiça, Wellington César, e com o ministro da Fazenda, Dario Durigan. A maior parte das conversas ocorreu por telefone.

Ao Ministério da Justiça, Lula determinou um levantamento sobre os prejuízos que a medida norte-americana pode trazer à cooperação entre os países no combate ao crime organizado. Já a Durigan, o presidente pediu um estudo rápido sobre os possíveis impactos econômicos da decisão anunciada pelos EUA.

Apesar da mobilização no Planalto, o governo ainda não definiu se fará uma manifestação oficial nesta sexta-feira (29) ou se aguardará mais alguns dias . Integrantes do governo afirmam, porém, que já existem ao menos duas versões de nota prontas, aguardando apenas o aval do presidente.

A equipe de comunicação do presidente também defende que Lula trate do tema publicamente ainda nesta sexta, durante evento em Sergipe, mantendo o foco na defesa da soberania brasileira.

Críticas à decisão sem defender facções

Nos bastidores, auxiliares de Lula discutem como adotar um tom duro contra a ação norte-americana sem transmitir a imagem de defesa das facções criminosas. A avaliação da área de comunicação é de que existe uma “linha tênue' na percepção da opinião pública.

Uma das estratégias em discussão é concentrar o discurso nas consequências econômicas e diplomáticas da medida, numa tentativa de atrair apoio do mercado financeiro e de setores empresariais às críticas do governo brasileiro.

Segundo interlocutores, já está definido que a reação do governo terá como eixo central a defesa da soberania nacional, repetindo o discurso adotado pelo Planalto durante o episódio do tarifaço anunciado pelos Estados Unidos.



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