“Muitas lavouras morrem de sede tendo água no solo', diz agrônomo

Compactação, adubação sem precisão e manejo superficial estão entre os principais gargalos da produtividade da soja em 2026.

OPR


Foto: Divulgação/Arquivo OPR

O Brasil caminha para mais uma safra histórica de soja em 2025/26. Segundo os números mais recentes da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a produção nacional deve atingir 177,8 milhões de toneladas, impulsionada por uma área cultivada próxima de 49 milhões de hectares. Apesar do recorde em volume, um indicador segue preocupando técnicos e produtores: a produtividade média brasileira continua estacionada em torno de 60 sacas por hectare.

O dado expõe um contraste crescente dentro da sojicultura nacional. Enquanto programas de melhoramento genético apontam potencial produtivo estimado em até 200 sacas por hectare, a maior parte das lavouras brasileiras ainda opera muito abaixo desse limite. Para o engenheiro-agrônomo e especialista em fisiologia vegetal Leandro Barcelos, o principal gargalo não está mais apenas na genética, mas sobretudo em falhas de manejo que comprometem a eficiência do sistema produtivo.

Engenheiro-agrônomo e especialista em fisiologia vegetal, Leandro Barcelos: “Compactação, baixa atividade biológica, deficiência no desenvolvimento radicular e manejo inadequado da fertilidade estão entre os principais fatores que limitam o desempenho da soja no país”

Segundo ele, o problema se torna ainda mais sensível em um momento de pressão sobre os custos de produção. A ureia, um dos principais fertilizantes nitrogenados utilizados no campo, registra forte valorização em 2026 após as restrições impostas pela China às exportações de fertilizantes, elevando em cerca de 40% o custo do insumo em comparação ao ano anterior.

Na avaliação do especialista, muitos produtores continuam investindo pesado em fertilização sem conseguir transformar esse aporte em produtividade efetiva. “A semente que você planta tem DNA para entregar 200 sacas, mas ela morre de sede e fome com o pé na água e no adubo, porque o manejo tradicional criou uma barreira invisível entre a raiz e o nutriente”, afirma Barcelos.

O agrônomo sustenta que parte importante das perdas produtivas ocorre abaixo da superfície do solo, muitas vezes sem sinais visíveis na lavoura durante boa parte do ciclo. “Compactação, baixa atividade biológica, deficiência no desenvolvimento radicular e manejo inadequado da fertilidade estão entre os principais fatores que limitam o desempenho da soja no país”, salienta.

Segundo Barcelos, o cenário exige uma revisão técnica mais profunda do modelo produtivo adotado em muitas propriedades, especialmente em regiões onde eventos climáticos extremos vêm reduzindo a estabilidade das safras. “O produtor aumentou tecnologia embarcada, genética, máquinas e fertilização, mas em muitos casos ainda trabalha com um solo que não consegue entregar tudo aquilo que a planta precisa absorver”, avalia.

Dentro desse cenário, Barcelos lista cinco falhas de manejo que, na avaliação dele, continuam limitando o potencial produtivo da soja brasileira, mesmo em propriedades altamente tecnificadas.

O especialista classifica esse erro como “voar às cegas” dentro da lavoura. Segundo ele, muitos produtores ainda trabalham com análises antigas, superficiais ou pouco detalhadas, justamente em um momento em que o custo dos fertilizantes exige máxima eficiência no uso dos insumos.

Uma leitura mais aprofundada do perfil químico do solo pode revelar, por exemplo, áreas já saturadas em fósforo, evitando aplicações desnecessárias e reduzindo custos sem comprometer produtividade. “No cenário atual, errar na adubação pesa diretamente na margem do produtor”, pontua.

Outro problema recorrente é tratar toda a fazenda de forma homogênea. Sem mapas de fertilidade e manejo por ambiente, o produtor acaba aplicando a mesma dose de fertilizante em áreas com necessidades completamente diferentes. “Isso gera desperdício de insumos em alguns pontos e deficiência nutricional em outros, criando manchas de baixa produtividade dentro da própria lavoura”, avalia.

Para ele, a safra 2026/27 exigirá cada vez mais nutrição de precisão e decisões baseadas em dados.

Na avaliação do agrônomo, este talvez seja o erro de maior impacto econômico dentro da propriedade. A compactação limita o aprofundamento das raízes e reduz drasticamente a capacidade da planta de acessar água em períodos de estiagem. “Muitas lavouras morrem de sede tendo água no solo”, aponta Barcelos.

Segundo ele, o desafio não está apenas na superfície, mas na construção de um perfil de solo corrigido em profundidade, entre um metro e um metro e meio. Isso permitiria à soja acessar reservas hídricas estimadas entre 200 e 400 milímetros de água armazenada no perfil do solo. “A estabilidade produtiva das áreas mais resilientes à seca normalmente está associada a sistemas radiculares mais profundos e ambientes menos compactados”, pondera.

Com a pressão sobre os custos de produção, Barcelos avalia que muitos produtores ainda mantêm dependência excessiva de recomendações padronizadas de mercado, sem considerar as características específicas de cada área.

Segundo ele, a adoção automática de “pacotes” tecnológicos pode levar à compra de produtos desnecessários e ao direcionamento incorreto do investimento. “Em um ano apertado, a decisão precisa ser técnica, baseada no gargalo real da lavoura, e não apenas em um protocolo padrão”, menciona.

O quinto erro apontado pelo especialista envolve o uso excessivo de fertilizantes foliares como solução imediata para problemas nutricionais visíveis na planta.

Embora reconheça a importância das aplicações foliares dentro do manejo, Barcelos afirma que muitos produtores acabam tratando apenas os sintomas sem resolver limitações físicas, químicas ou biológicas do solo. “Produtividade de três dígitos se constrói na raiz. O foliar é complemento, não solução isolada”, ressalta. Segundo ele, o uso eficiente dessas ferramentas depende de critérios técnicos, definição correta de dose, fonte e potencial produtivo da área, sem “receita de bolo”.

Para Barcelos, o próximo salto de produtividade da soja brasileira não virá apenas de novas cultivares ou do aumento no uso de insumos, mas principalmente da capacidade de o produtor entender o funcionamento do solo como sistema biológico, físico e químico integrado.

Na avaliação do especialista, em um ambiente de custos elevados e maior instabilidade climática, a margem da atividade tende a ficar cada vez mais ligada à eficiência do manejo dentro da porteira. “O Brasil já mostrou que sabe expandir área e produzir volume. O desafio agora é transformar potencial produtivo em produtividade real e sustentável dentro da lavoura”, enfatiza.



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