Vem a caneta, vai-se o peso; vai-se a caneta, vem o peso?

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Medicamentos usados para diabetes e obesidade; estudo prevê retorno ao peso inicial em torno de 20 meses - Karime Xavier - 9.jan.25/Folhapress

Todo o entusiasmo com os novos medicamentos antiobesidade encontra seus limites no mundo real. Os ensaios clínicos que embasaram a aprovação dessas drogas foram desenhados para demonstrar eficácia durante o uso, e não para avaliar o que acontece após a suspensão.

A questão importa porque, fora do ambiente rigidamente controlado —e, portanto, artificial— da pesquisa, estima-se que metade dos usuários com obesidade abandona o medicamento dentro de um ano. Que fim levam é o que gostaríamos de saber. Um estudo recente nos deu pistas sobre o assunto ao quantificar a magnitude e a velocidade do reganho de peso após a interrupção desses fármacos. Trata-se de uma revisão sistemática com meta-análise de 37 estudos, somando mais de 9.000 participantes, com duração média de tratamento de 39 semanas e seguimento médio de 32 semanas após a suspensão.

A análise mostrou que, independentemente do tipo de medicamento, o reganho de peso foi consistente e relativamente rápido. A taxa média foi de cerca de 0,4 kg por mês, o que implica um reganho aproximado de 4,8 kg no primeiro ano e .

Ao restringir a análise aos novos medicamentos antiobesidade —os agonistas de incretinas—, a recuperação foi ainda mais rápida: cerca de 0,5 kg por mês. Considerando apenas os fármacos mais potentes, como semaglutida (Ozempic, Wegovy, Rybelsus) e tirzepatida (Mounjaro, Zepbound), o reganho chegou a 0,8 kg por mês, com retorno ao peso inicial em cerca de 18 meses.

Marcadores cardiometabólicos como glicemia, colesterol e pressão arterial —que melhoraram substancialmente durante o tratamento— acompanharam a tendência do peso após a interrupção, com retorno progressivo aos níveis pré-medicação; as projeções indicam que a maior parte desses benefícios se perde em cerca de 17 meses.

Mesmo levando em conta a magnitude da perda de peso inicial —muito maior com os novos medicamentos—, o reganho foi mais rápido com fármacos do que com intervenções comportamentais, sugerindo que a diferença não está apenas em 'quanto', mas em 'como' se perde o peso. Eis que ressurgem os programas de estilo de vida, dados como antiquados cedo demais. Embora produzam perdas iniciais mais modestas, dieta e exercício associaram-se a um reganho muito mais lento (cerca de 0,02 kg por mês) e à manutenção parcial dos benefícios cardiometabólicos por até cinco anos.

Esses achados abalam a ilusão de uma 'cura' farmacológica da obesidade. A disponibilidade limitada, os efeitos adversos e a necessidade de injeções frequentes dificultam a adesão e ajudam a explicar as altas taxas de abandono do tratamento fora dos ensaios clínicos. Sem dúvida, porém, o principal entrave é o custo, que para muitos se torna proibitivo à medida que o tratamento se estende. A ideia de medicar a população indefinidamente pode agradar à indústria, mas impõe a questão: os sistemas públicos de saúde teriam como arcar com a conta?

Uma saída possível pode estar em estratégias híbridas: selecionar melhor quem tem maior chance de benefício clínico; adotar doses menores de manutenção do medicamento; planejar a transição para intervenções de estilo de vida; e intensificar o cuidado para subgrupos mais suscetíveis ao reganho de peso. Em todas essas frentes, porém, as evidências permanecem limitadas.

O rápido avanço da ciência expõe o hiato entre as promessas dos novos medicamentos antiobesidade e seu sucesso na vida real. Da mídia aos consultórios, urge uma comunicação mais honesta sobre as incertezas de longo prazo. Aos usuários, faz bem moderar as expectativas.



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