Final da Sul-Americana pareceu chegar cedo demais para um Cruzeiro que fabricou seu atraso

GLOBOESPORTE.COM / CARLOS EDUARDO MANSUR


Quem olhasse para o campo e visse o time do Cruzeiro tentando colocar em prática traços que caracterizam o jeito de jogar de Fernando Diniz, poderia concluir que a final da Sul-Americana chegou cedo demais para o time. Afinal, estava em campo um trabalho de dois meses diante de outro que começou junto com a temporada.

No entanto, talvez seja mais justo dizer que o próprio Cruzeiro fabricou o seu atraso. Diniz pode conduzir o time em 2025 a um nível de jogo mais elevado e até a resultados melhores. No entanto, quando o novo dono do clube decidiu interromper a promissora passagem de Fernando Seabra e trocá-lo por alguém de perfil tão autoral e peculiar, um risco estava colocado: a reta final da temporada poderia sofrer as consequências de um time em transformação. A maior diferença em Assunção, na derrota para o Racing, não foi técnica ou individual, mas a convicção que cada uma das equipes tinha na sua forma de atuar.

É até natural que se argumente que o Cruzeiro sofrera uma queda nas semanas finais de Seabra após um período de ótimo desempenho no Brasileiro. Mas não é simples de separar tal oscilação da conduta do novo dono do clube, cujas manifestações, ao menos uma delas num áudio vazado, lembraram mais o antigo perfil do dirigente voluntário em clubes associativos do que um líder em uma estrutura empresarial.

Não surpreendia a forma como o Racing tentava chegar ao gol: pressão forte no jogador cruzeirense que tivesse a bola e, ao recuperá-la, um jogo bem direto e de poucos passes. Quase sempre, o alvo era Salas pelo lado esquerdo. Por ali saiu um gol que terminou anulado e também o gol de Adrián Martínez, o segundo dos argentinos no jogo. O Cruzeiro controlava mal as bolas em profundidade às costas de sua defesa e, em dado momento, tentou pressionar deixando sua linha defensiva no mano a mano, mas deu espaços a quem faria o lançamento – no caso o lateral Rojas.

Antes disso, Martirena já traíra Cássio num cruzamento que encontrou a rede, abrindo o placar. Foram 20 minutos em que o Cruzeiro mal respirou no calor da capital paraguaia.

O time tentava executar movimentos característicos do jogo proposto por seu treinador. Mas a sensação é de que ainda faz força para isso. A saída de bola tinha jogadores desconfortáveis, em especial Walace, que falhou no segundo gol. Ele foi substituído ainda na primeira etapa. Quem parece se afirmar como fio condutor da equipe é Matheus Henrique. São seus movimentos que determinam onde o time vai acumular jogadores e tentar trabalhar em passes curtos.

A partir da metade final da primeira etapa o Cruzeiro se estabilizou, mas sua posse era pouco contundente, gerava raros movimentos de infiltração. Na segunda etapa, quando Matheus Henrique, Matheus Pereira, Lucas Silva e Lucas Romero se juntaram pelo setor direito, começou a jogada brilhantemente conduzida por Matheus Henrique e finalizada por Kaio Jorge.

Diniz mexeu, colocou Barreal e moveu Matheus Henrique, que inicialmente partia do setor esquerdo, para o meio. Tentou povoar o setor, mas a necessidade do gol foi criando mais exposição do que grandes oportunidades. Ainda assim, Barreal teve boa participação ao entrar no jogo.

No fim, um dos contragolpes do Racing contra uma defesa já aberta resultou no terceiro gol.

Quem pensar na trajetória recente de um Cruzeiro que sofreu demais com gestões temerárias em anos recentes, poderá enxergar nesta final um traço da evolução do clube, iniciada com Ronaldo à frente da SAF. Agora, sob nova direção, o desafio é dar estabilidade aos profissionais do futebol. Para que uma próxima decisão encontre um Cruzeiro com um projeto esportivo mais maduro.



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